segunda-feira, 30 de setembro de 2013

e como a festa não pode parar, em junho, aniversário de Patricia Galvão, a Pagu,  publicamos seu Parque Industrial , o primeiro romance proletário brasileiro que já estava nos Estados Unidos, em tradução de K. David Jackson, professor de Literatura Brasileira em Yale  em parceria com a profª Drª Elizabeth Jackson e, para nossa surpresa, o Parque Industrial chegou ...
 à Croácia pelas mãos de Jelena Bulic, uma estudiosa da Literatura brasileira e portuguesa
 e ao México pelas mãos de professores estudiosos de nossa literatura como o  prof. Dr. Hector Olea do "Museum of Fine Arts" em Houston, Texas. que na década de 1980 produziu belos artigos sobre o romance Parque Industrial e prof. Martin Camps.

NO Brasil, depois de Augusto de Campos e tantas outras figuras ligadas à nossa literatura,  Cris  Lirica comemorou os 80 anos de Parque Industrial
 então continuamos e publicamos Doramundo de Geraldo Ferraz, que no dizere  de Hélio Pólvora..." é um dos mais brilhantes momentos do romance brasileiro"...que se tornou o sexto romance brasileiro mais vendido no site da Amazon do mês de setembro e aqui abaixo recebe a atenção do Prof. Dr. K. David Jackson em brilhante artigo

 Pagu e Geraldo Ferraz, por que não? Publicamos o romance que escreveram  a quatro mãos A Famosa Revista.
E aqui transcrevemos o também brilhante estudo do prof. Dr. K.David Jackson sobre este livro, que é, na realidade, um estudo sobre o mundo de seus autores  Geraldo Ferraz e Patricia Galvão, a Pagu 





ALIENAÇÃO E IDEOLOGIA EM A FAMOSA REVISTA (1945)

K. David Jackson


. . . esta força de dizer NÃO diante da voragem. . .
            A Famosa Revista, romance de Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz escrito no Rio de Janeiro em 1944-45 é um memorial, entre ficção e poesia, do idealismo e da política de uma geração modernista, cuja luta frustrada a favor de reforma ou revolução acaba na separação e alienação do artista da sociedade.  A memória dos autores esboça uma visão trágica do conflito entre a ética e dignidade pessoais e as doutrinas de sistemas políticas intratáveis.  A narrativa abrange os anos de1935-43, quando a heroína militante do romance, Rosa, homenagem a Rosa Luxemburg,[i] contribuiu para uma revista controlada pela Terceira Internacional no Brasil, a "Revista" do título.[ii]  Depois de haver lutado contra o estado autoritário e repressivo quando jovem, Rosa ironicamente narra os fracassos, abusos e crimes da "famosa revista" do partido que antes representara a esperança.  Embora localizada no Brasil, a epopéia moderna da degredação do indivíduo pela ideologia é apresentada como uma alegoria que pudesse dizer respeito a qualquer sociedade.
            O tema do romance, tirado da biografia dramática de Patrícia Galvão,[iii] é de desilusão e alienação na tradição existencial de Dostoevski, Kafka, e Sartre, autores, entre outros, que Pagu destacaria na "Antologia da Literatura Estrangeira" no Diário de S. Paulo em 1946, um dos mais importantes esforços para promover a literatura comparada no Brasil.  O contraste entre a rebelião individual e a revolução sócio-política no romance sugere paralelos com o romance de Malraux sobre o levante de1927 em Shanghai, La Condition humaine (1933).[iv]  Ativos na política, Malraux e Galvão têm em comum a volta para a literatura.  Murray Krieger percebe a psicologia cultural do existencialismo na sua temática comum: rebelião como caminho à auto-realização, confrontação com a disciplina impiedosa do Partido, e as consequências pessoais do individualismo rebelde.  Irving Howe interpreta o compromisso com a literatura de Malraux e Silone como ação política desesperada na qual os autores vêm a ser os verdadeiros heróis, vivendo as tragédias e derrotas de sua luta para humanizar a ideologia (206-7).  A Famosa Revista representa a literatura brasileira nessa categoria, que Howe classifica com a descida ao desespero--the fall into despair (227)--do romance político do século vinte, do ardor revolucionário à dúvida existential.  Em 1946 Pagu confirmou no seu jornalismo "a alienação do meu patrimônio de ardentes esperanças!" e revelou uma perspectiva de desespero existencial: "eis que estou só e fora do caminho. . . sou a impotência, o ser diante do nada" ("Fala" 2).
            Enquanto dirige suas palavras contra a ideologia do "Estado Novo" que a aprisionara, como fizera Graciliano Ramos nas memórias de1936-37 (Memórias do Cárcere 1953), Galvão igualmente investe contra o Partido que rejeitara a sua ação militante.[v]  Descreve o tema do romance como "a história de um partido político, de uma corrupção e de uma distorção ideológica . . . " (1959).  As intenções satíricas dos autores são reveladas em uma entrevista com Ferraz: "Nós combinamos escrever o livro porque queríamos produzir uma sátira contra o Partido, de uma forma romanceada, com incidências no plano nacional e no plano internacional" (Steen 196).  A sátira da "Revista" do partido é retratada em cenas teatrais extraídas de acontecimentos políticos e de personalidades conhecidas por Galvão e Ferraz nos anos 1930.[vi]

Inovação estilística
            Um dos maiores problemas da prosa de ficção brasileira nos anos 30, segundo João Luiz Lafetá, é a conciliação de uma visão crítica e combativa de problemas sociais com a renovação revolucionária da linguagem literária do modernismo.  Parece-lhe que a prosa ideológica da luta política e da conscientização social dilui a intensa experimentação que caracteriza a modernização literária dos anos 1920s.[vii]  As técnicas faltando ao estilo sócio-realista, segundo Lafetá, incluem processos poéticos, a tensão linguística, o tom popular ou coloquial, a síntese, a surpresa e o humor (22).  Conscientes da estética do romance, Galvão and Ferraz revestem os temas políticos em prosa poética, sujeitando a política a um tratamento músico-estético que fortalece a experimentação linguística e a poetização do gênero.  A ficção resultante revela os laços, outrora imperceptíveis, entre a crítica sócio-política dos anos 1930 e a rebelião na estética dos autores de vanguarda precedentes.
            A aplicação da imaginação poética à prosa identifica a obra, no conceito de Ralph Freedman, como um romance lírico: "internal without being necessarily subjective; reflective without being essayistic; pictorial or musical without abandoning the narrative framework of the novel" (279). ["interior sem ser necessariamente subjetivo; refletivo sem ser ensaístico; pictórico ou musical sem abandonar a estrutura narrativa do romance"].  A narrativa é comunicada através da metáfora, das imagens ou da linguagem musical, porém tem de se sustentar como uma relação de acontecimentos.  Na mistura lírica de romance e poema, Freedman determina uma competição entre o eu e o mundo.  Michael Hamburger, mais radical, postula uma predisposição à alienação da sociedade como resultado de tradições poéticas romântico-simbolistas que subjazem à militância intelectual moderna (81-86).  A investigação novelística das exigências da revolução sobre o eu em A Famosa Revista, o desequilíbrio entre a liberadade do homem e um destino externo e imposto, fazem da obra, em última análise, um texto anti-político com a harmonia concomitante do trágico e do lírico.[viii] 

A síntese estilística
            O estilo poético d'A Famosa Revista é intencionalmente experimental, sendo a síntese de três fontes diferentes: técnicas modernistas dos romances de vanguarda dos anos 1920, o realismo social dos anos 1930 e o novo romance lírico dos anos 1940.  Dentre os capítulos e as cenas d'A Famosa Revista essas estéticas e estilísticas estão entrelaçadas, levando o jogo lúdico e a invenção linguística da vanguarda à critica social neo-realista e ao protesto político.  Essa colagem incomum de estilos é elaborada através de uma estrutura poética de narração interior e de imagens esotéricas, captadas liricamente das memórias ficcionalizadas.
            Do estilo de vanguarda (sobretudo, o "romance-invenção" de Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande, 1933), os autores recriaram a "metáfora lancinante" em A Famosa Revista:
Nas ruas estendiam-se as rêdes de arame farpado.  Funcionários catalogavam as caras.  (FR 128)
A prosa cubista, reminiscente das Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), fragmenta as imagens descritivas:
A neuralgia do piano uiva na recordação auditiva através des ondes.  (FR 212)
Das janelas dos arranha-céus giratórios escaparam as mãos acenantes.  (FR 176)
            Do realismo social do romance da Pagu, Parque Industrial (1933), são os temas proletários e a dramatização dos problemas sociais da presente obra, incluindo a descrição do "bairro febril"; a caricatura sumária e farsante dos oficiais da "Revista"; o papel das mulheres nos conflitos políticos, éticos e sexuais; a exploração ideológica da classe trabalhadora; e o jornalismo político.
            A prosa poética lírica é especialização de Geraldo Ferraz, trabalhada no próprio romance posterior, Doramundo (1956).  No capítulo "Intermezzo" d'A Famosa Revista os autores empregam uma narração fluxo-de-consciência, produzindo uma colagem lírica de imagens através de técnicas poéticas e aliterativas: "Rosarrosa correndo de pedras margas pernas magras na beira da cama ouvidos de concha noite e dia" (210).  A poetização da narração e descrição, técnica essa aprendida por Ferraz nas revistas e romances de vanguarda, representa um desafio ao estilo realista que veio a predominar na prosa de tema político ou psicológico, nas décadas de 1930 e 1940, criando uma ponte entre a estética modernista e o romance contemporâneo.

A sátira política e compromisso social em "As 100 Páginas"
            Em "As Cem Páginas da Revista," capítulo de 28 fragmentos ocupando aproximadamente metade do romance, as idealistas decepcionadas, Rosa e Tribli, journalistas pela revista do Partido, desvelam o mecanismo interior do vasto empreendimento burocrático em uma sátira política devastadora.  Enfrentam as instalações ameaçadoras da "Revista" na sua fábrica na "Rua da Pedra do Sal," referência à rua no centro do Rio de Janeiro no bairro da Saúde, como participantes espantadas de um drama futurista de ficção detetive.  As transações jornalísticas transpiram em uma atmosfera de mistério e despersonalização, como de um governo autônomo dentro de uma metrópole moderna.  A "Revista" é uma iniciativa gigantesca com máquinas ultramodernas atrás de painéis de vidro, estampando fortíssimo entre pilhas de papéis espalhados.  O dono desconhecido nunca havia sido visto na fábrica, porém, como em Das Schloss (1926), de Kafka, corria o boato que assumia aspeto inesperado: "O senhor não viu o dono da Revista.  Um lapso muito compreensível.  Confundiu-o com o dono dos cinzeiros" (133).  Quando Mosci pergunta a Rosa quem é o dono da "Revista", ela responde, "É apenas uma estátua de cêra" (162).  É um assistente, identificado pelo pseudônimo "Sr. Dacier" ("homem de aço"), que controla as operações[ix]  Sete diretores anônimos, satirizados como a "Irmandade do Escaravelho," constituindo clube particular da elite que se reúne no distante rancho da "Lua de Prata", supervisam "os sete pecados capitais" dos trabalhadores ("desobediência, rebeldia, pusilanimidade, negligência, hesitação, traição e sátira" 165).  Recebem ordens telegrafados do estrangeiro e assinadas, em homenagem a Der Prozess (1925), de Kafka, com o inicial "K."
            Em cenas reminiscentes de Brave New World (1932), de Huxley, a "Revista" opera um sistema interno de vigilância com telas mecânicas de televisão..  O "Departamento de Escuta" é responsabilizado pela predisposição e o contrôle de relacionamentos entre os empregados, incluindo amizades e casamentos.  Os empregados, tratados somente por "funcionário/a," são incitados a trabalhar com o máximo de zelo e sacrifício; são convidados a contribuir com as suas idéias fúteis à Diretoria, mesmo que a orientação política já tenha sido decidida e imposta de fora.  Os depoimentos de acusação colecionados por agentes da "Escuta" para os dossiers  dos trabalhadores da "Revista" ("Caso 128-C, classe F," etc. 182) espelham documentos apresentados no processo da Pagu em 1937 diante do "Tribunal de Segurança Nacional," testemunhas que incluíam ironicamente uma deposição do PCB repudiando suas atividades por causa do alegado comportamento "individual, sensacionalista e inexperiente" (Campos 325).  O sacrífcio do indivíduo ao sistema da "Revista" é total e socialmente comprometedor.
            A sátira da linguagem e de hábitos sociais introjetam o humor como contraponto ao sinistro retrato de ocorrências.  Os pseudônimos de funcionários da "Revista" ("Bicho-taquara," "Ubirajara," "Fôlha Sêca," etc.) imitam aqueles empregados por oficiais do PCB no Brasil--"Garoto" (Luís Carlos Prestes), e os apelidos mais populares de "Abóbora," "Gaguinho" e "Cabeção" (Dulles 6,7, 10).  Os burocratas da "Revista" são denunciados por seu comportamento sexista.  Depois de se insinuar na diretoria com seu charme feminino, Tribli logo satiriza as muitas intrigas sedutivas de Dacier que suplantam o seu compromisso ideológico:
--Mas você pertence à Revista.
--Devo entregar-me a ela portanto.  E você funcionaria assim como o sexo masculino da Revista.  Ora Dacier!  (189)
Rosa se torna objeto de suspeita quando recusa o pedido da Irmandade de seduzir um mensageiro de banco e, dessa maneira, roubar uma grande sacola de dinheiro sendo transferido de trem.  Ao afirmar que o idealismo e a capacidade intelectual de muitas funcionárias da "Revista" estavam sendo desprezados, Rosa rejeita a política sexual e propõe aos diretores uma inversão de papéis burgueses: "Por que você não põe sua mulher nisso?" (157-58).
            Iniciando a sátira dentro da sátira, Tribli lança uma publicação clandestina, desafiando a "Revista" através do uso dos próprios clichés, roubados e alterados a ler  "REVISTINHA."  A revista diminutiva, de fraca reprodução, pretende destronar o Dacier e assim vingar os muitos assinantes pobres cuja mínima contribuição, oferecida ao câmbio de "pão espiritual," ela considera sagrada.  Pela ofensa da sátira, Tribli é presa, condenada e assassinada pelos diretores da "Revista" ("Der Prozess" 197-200), crime narrado em uma atmosfera irreal, alucinada[x]  A morte de Tribli é a apoteose da repressão e do desespero, simbolizando os últimos dias da "Revista."
            Porta-voz de uma segunda geração modernista cujo idealismo foi logo substituído pela alienação, Tribli zombou da fé do jornalista Mosci na liberdade de expressão ("Você raciocina com a cabeça de um jornalista do século passado, em certas Repúblicas" 180); a "procura de valores novos" dele, herança modernista, era já no conceito de Tribli, aos 15 anos, uma decepção cínica com implicações existenciais.  Ela reconheceu como absurda a paixão de reforma num mundo sem esperanças: "Não há vantagem alguma em ser valor novo num mundo de asas quebradas" (136).

A sátira social nos "Compartimentos"
            A história de amor entre Rosa e Mosci, narrado em16 quadros ou "compartimentos," de estrutura independente, combina a sátira com introspecção psicológica.  Lutando para sobreviver fora da "Revista," o casal é sujeito a exame esmiuçado e condenação pelo "tribunal popular" da opinião pública.  As cenas satirizam os valores estereotipados da sociedade.  Na pensão, Rosa é denunciada como prostituta porque mora com Mosci sem serem casados ("Quem vive com um homem sem casar não é séria.  É a mesma coisa.  Tudo mulher da vida." 217), enquanto defendem o macho: "Ele não faz mal que é homem.  A sem-vergonha porém" (226).
            Em uma sátira da mais nova psicologia vinda da Europa, o casal de jornalistas sobe a bordo do navio Nieuw Havenhagen's  para entrevistar o "famoso experimentalista Risg, psiquiatra da nova teoria da cidade da Valsa" (227).[xi]   Os supostos estudos de psicopatas e neuróticos, com seu jargão científico, satirizando as psicoses sociais da época em humor negro ("o suicídio, o enlouquecimento, os pogroms, os comícios, a assistência do futebol" 227-28), parodiam a política de experimentação clínica para fins de contrôle social.  Como um ditador enraivecido, Risg segura um globo celeste no qual certos locais de cultura e história foram riscados (228).  Risg critica Freud por "impurezas" e lamenta o atraso da engenharia biológica no apoio ao socialismo nacionalista: "Fabricaríamos homens-máquinas para os ditadores, para usinas, para os latifúndios de pão e leite.  Mas a biologia nada pode.  A psicologia só forneceu até agora meios de persuasão, mas êstes sem um bom sistema inquisitorial têm fracassado . . . ." (229).  Nessa paródia de experimentação social, Risg é desmascarado como apologista de regimes totalitários.
            Outra cena parodia o planejamento social na visita de um "técnico de felicidade" sueco,[xii] que recomenda a estandardização de produtos, o contrôle de comportamentos e o manejo da sociedade como caminho à felicidade geral:
Uma sopa de vegetais desidratados, que só falte jogar água fervendo, um bife acondicionado no vácuo, que apenas aquecido pode ser pôsto na mesa, aeroplanos como fords, ao alcance de todos, a vida facilitada em todos os sentidos,o homem satisfeito, com a máquina, a escrava das democracias . . ." (244).
Rosa e Mosci, afastados do debate, observam no culto do futuro um otimismo superficial, os postulados ingênuous pseudo-científicos e a falta de qualquer dimensão humana.[xiii]
            O casal testemunha o desfecho da "Famosa Revista" no capítulo "A Catástrofe" (237-42).  Quando escondidamente os maiores acionistas vendem suas ações, os trabalhadores chegam à fábrica para encontrar um aviso de falência colado ao portão.  Rosa sonha que as páginas da "Revista" estão sendo consumidas pelas chamas, uma por uma, pressentimento de um incêndio todo poderoso:
A Revista pegava fogo.
--Engraçado--comentavam.  --Puseram fogo depois de ter pedido falência.  Esta é muito moderna . . .  Antigamente primeiro a gente punha fogo.  (240)
A conflagração e o pânico simbolizando o fim de uma época, reminiscente d'O Ateneu (1888), de Pompéia, provocam suicídios de trabalhadores, choque e decepção.  Um interlocutor de rádio anuncia a crescente fogueira consumindo a "Revista" e o seu mundo, enquanto Dacier e outros diretores fogem para o estrangeiro.  Centenas de trabalhadores contraem doenças, são internados em asilos, ou se reduzem a atividades marginais: vendendo cachaça, macumba, prostitução, vida boêmia ou crime.  Os jogos lingüísticos enfatizam a ironia e humor, exemplificado no retrato de um ex-trabalhador virado trapaceiro: "Charles Az fechou-se em copas . . . " (241).

A condição existencial
            Rosa e Mosci são vitimados pelos anos de dedicação ao idealismo político da "Revista."  Sua liberdade é reconquistada unicamente através de ritos de exorcismo e vingança comunicados em linguagem existencial.  Mesmo há muito separada da "Revista," Rosa ainda sente a náusea de sua presença física: "Sentia ainda nos dedos o gôsto do papel da Revista, tipos, caixas de tipos, velhos clichês, xilogravuras" (251).  Alienada e distante, Rosa confessa a Mosci a amarga renúncia de não querer dar à luz a nenhum filho.  Compara os parques de brinquedos do futuro aos campos de concentração: "Colocarão focinheiras nos filhos que você tiver.  E os da nossa geração que não se conformarem passarão pelas correcionais, serão esterilizados, perderão a vida" (126).  Para Rosa, uma dor maior que do parto seria a de uma vida angustiada de horizontes fechadas e sem esperança: "Prefiro logo um bom fusilamento" (126,9).
            Rosa e Mosci vivem só para afirmar a sua existência, na sua pobreza e miséria: "Não é preciso esperança Rosa . . . é preciso tão só manter a vida" (270).  A determinação única de manter a vida é a etapa final da consciência social de uma geração modernista, representando a confluência de resistência revolucionária e de integridade ética e estética.  Na última cena dramática do romance, armados de alicates e lanternas na cidade da revista, "Babel," devastada pela guerra, Rosa e Mosci descobrem a coragem de enfrentar a escuridão da sociedade sem esperança, seja pessoal ou política: "E vamos para diante . . . Enfrentando a treva" (274).

            A Famosa Revista é o romance de "uma geração moderna que é política para livrar-se da política," na frase de Carlos Guilherme Mota.  Mas a difícil liberdade que conseguem Rosa and Mosci através de uma década de lutas e compromissos que os levam da modernização à alienação, "o protesto e a pedrada" (111), encontra sua expressão na conciência existencial da condição humana, "na honestidade de sua luminosa vida humilde, na generosidade de seu sonho" (130).




Conhecida geralmente com o nome de PAGU.  Desde princípios de 1937 que não mais pertencia ao Partido.  Muito conhecida pelas suas atitudes escandalosas de degenerada sexual.  Depois que 'fugiu' do Hospital da Cruz Azul, onde se encontrava presa, ligou-se ao grupo fracionista-trozkista, onde passou a atuar ativamente, tendo sido enviada por Sacheta e seus sequazes para o Rio de Janeiro, com a imcumbência de formar o CR trotzkista.  (23)
[vii]          Lafetá esboça o problema estético da prosa socio-política da seguinte maneira:
Incorporando processos fundamentais do Modernismo, tais como a linguagem despida, o tom coloquial e presença do popular, esse tipo de narrativa mantém, entretanto, um arcabouço neo-naturalista que, se é eficaz enquanto registro e protesto contra as injustiças sociais, mostra-se esteticamente muito pouco inventivo e pouco revolucionário.  (22)
BIBLIOGRAFIA
Andrade, Oswald de.  A Crise da Filosofia Messiânica.  São Paulo:  USP, 1950.
-----.  Memórias Sentimentais de João Miramar.  2ª ed.  São Paulo:  DIFEL, 1964.
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Bloch, Jayne.  "Patrícia Galvão: The Struggle Against Conformity."  Latin American Literary Review.  14.27 (jan.-jun. 1986): 188-201.
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Galvão, Patrícia.  "Fala o destempero da náusea."  Vanguarda Socialista 39 (24-5-46): 2.
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Lafetá, João Luiz.  1930: A Crítica e o Modernismo.  São Paulo:  Duas Cidades, 1974.
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Steen, Edla Van.  Viver e  Escrever 1.  Porto Alegre:  L & PM Editores, 1981.


             De Geraldo ferraz e PAGU MUITO EM BREVE, OUTRAS PUBLICAÇÕES NA EDITORA DESCAMINHOS . 

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