quarta-feira, 9 de outubro de 2013




A Cultura dos Sambaquis talvez pudesse ter como subtítulo “ensaio sobre a tristeza brasileira”, que é o subtítulo de Retrato do Brasil, de Paulo Prado (de cujas primeiras linhas saiu uma das epígrafes). Com duas correções: a tristeza não é apenas brasileira, mas latino-americana. E não se trata de ensaio, mas de ficção. Fora isso, valeria. Porque o que se lerá nestas páginas é uma história passada num continente em que cada geração tenta recuperar as utopias que as anteriores fracassaram em tornar reais, ainda que os ossos enterrados, acumulados no solo por séculos, alertem, teimosos: desistam, não vai dar, vocês não vão conseguir.

O personagem principal, Celso, ex-arqueólogo e ex-militante de esquerda, vai tendo a suas ideias, sua trajetória e seu destino explicado aos poucos, em parte por ele mesmo, em parte por textos que escreveu, e em parte por depoimentos colhidos com pessoas que conviveram com ele. 

O livro é construído numa estrutura caleidoscópica que entrelaça personagens fictícios com outros reais (como o intelectual Paulo Duarte, um dos criadores da USP e o etnólogo francês Paul Rivet, do Museu do Homem, entre outros), e compreende-se logo que, se por um lado há muitas perguntas, por outro as respostas não são óbvias e a realidade não é plana. E há, é claro, aquela pergunta essencial: quem é, afinal, que está investigando os fatos a respeito de Celso, e por quê? Isso, pelo menos, o leitor irá descobrir no fim.

Dentre os livros que já escrevi, este Sambaquis talvez seja o mais explicitamente político, mas "político" entendido num sentido mais amplo da palavra, porque ele está longe de defender causas, de ser militante ou panfletário. A política, aqui, mais do que um tema ou pano de fundo, é quase um personagem. Ocorre que a política, e uma política especialmente trágica e violenta, tem feito parte da vida brasileira e latino-americana desde muito tempo. E, assim sendo, ela interferiu decisivamente nos destinos de Celso e de quase todas as pessoas que aparecem nestas páginas. 

Ao mesmo tempo, este é foi um trabalho no qual me preocupei muito com a estrutura, mas procurando não cair em quaisquer excessos formais. Ocorre que, como a realidade descrita na história mostrava-se complexa, contraditória e mesmo nebulosa, pensei que a estrutura deveria refletir isso. E a última coisa que o leitor encontrará neste livro será um narrador onisciente e onipotente. Ele sabe pouco, e pode menos ainda... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário